O Caminho Nunca Dantes Percorrido

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Dois caminhos divergiam num bosque, e eu…
escolhi o menos percorrido.
E isso fez toda a diferença.”

—Robert Frost, The Road Not Taken

As escolas de todo o mundo estão a percorrer um caminho nunca dantes percorrido. Após séculos da lógica presencial, que definiu a sua própria essência como escolas, viram-se subitamente esvaziadas e projetadas para a distância, sem qualquer preparação prévia para a transformação. De um dia para o outro, professores, alunos e pais tornaram-se náufragos de um navio que navegava a todo o vapor e se deteve bruscamente. Estão agora empenhados em construir a jangada que os levará a bom porto. A sua grande dificuldade é que a jangada terá de ser construída ao mesmo tempo que navegam.

Este é um caminho nunca explorado. Ninguém sabe como percorrê-lo. Uma coisa é educar a distância segundo teorias e práticas que têm vindo a consolidar-se ao longo de décadas. Outra coisa, bem distinta, é mudar subitamente do presencial para o remoto, com mais de metade do ano já cumprida. É como começar um jogo com regras bem conhecidas e interrompê-lo subitamente para começar, sem intervalo, um jogo cujas regras se desconhecem. Ainda por cima, pretende-se chegar ao fim do ano com resultados apurados.

Que fazer? O objetivo das minhas contribuições neste espaço é tentar responder a esta questão. Para o efeito, procurarei conciliar o que aprendi ao longo dos anos que dediquei à educação e às tecnologias com o que aprendi, também ao longo de muitos anos, sobre como resolver problemas sociotécnicos em contextos de incerteza — os chamados problemas perversos, ou “wicked problems”.

Procurarei fazê-lo através de intervenções curtas e, se possível, frequentes. O momento não é a meu ver para grandes teorias ou para extensas listas de referências. Lá chegaremos, um dia, se necessário, mas o que interessa agora são sugestões práticas que possam ser acionadas de imediato. Abordá-las-ei a partir da minha próxima intervenção.

Um ponto prévio. Um professor é sempre um professor, com ou sem tecnologias. A excelência da educação não está no uso das tecnologias. Está na alma para a pedagogia, construída ao longo de uma vida, está na comunicação aberta, na entrega, na empatia, na paixão pelos alunos, na nobre missão de criar cidadãos completos. As tecnologias poderão, ou não, reforçar esse papel, mas o que define um professor não é o talento para as tecnologias: é a pedagogia. Um professor que nada saiba de tecnologias tem tudo o que é necessário para, passo-a-passo, com o auxílio de colegas e alunos, começar a incorporar as tecnologias no seu arsenal pedagógico.

O que isto significa é que atravessamos um raro momento de valorização. Uma oportunidade única para os professores examinarem as suas próprias práticas à luz dos desafios que a distância lhes coloca e tornarem-se ainda melhores professores. É nesse percurso que espero poder acompanhá-los.

(A foto é do autor)

Nota – Este texto foi publicado originalmente no blog da Comunidade Aberta e Inclusiva de Apoio à Transição para a Educação Online em 26 de Março de 2020.

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