Educação a Distância de Emergência – 6 Sugestões

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Sem regularidade, mas porque recebo muitas newsletters cujas assinaturas fui afinando ao longo dos anos, irei partilhando aqui sugestões que vou recebendo e que me pareçam coincidentes com a visão que tenho de uma educação a distância de emergência. As seis sugestões que hoje apresento são inspiradas nas da diretora de uma escola básica de Hong Kong que as descreveu para a Education Week. Esta professora, que nunca tinha ensinado a distância, revela-nos o que aprendeu, juntamente com toda a sua escola, sobre como reinventar uma escola para estas desafiantes condições.

Não repitam o dia típico da escola presencial. Uma solução que parece resultar é dividir o dia em quatro blocos, com os primeiros 15 a 20 minutos dedicados a uma videoconferência ao vivo entre professores e alunos. A estrutura do dia, radicalmente distinta da da escola presencial, deveria procurar alternar entre tempo estruturado e tempo auto-dirigido pelos alunos.

Criem muitos tempos sem écran. Não se esqueçam de que o ecrã é comprovadamente nocivo para a saúde e prejudica o desenvolvimento da linguagem, e que muitas crianças têm difícil acesso à Internet e partilham os dispositivos com a família. Ponham em prática alguns descansos de um dia inteiro, para renovar as energias, e prevejam tempos para as crianças lerem, completarem as tarefas longe do écran e brincarem.

Não sacrifiquem o desenvolvimento profissional. Mantenham, por videoconferência, sessões colaborativas regulares entre os professores, para que possam trocar ideias e experiências e partilhar materiais, recursos e competências (“eu ajudo-te nisto, tu ajudas-me naquilo”). Procurem criar um sentido de pertença a um projeto inovador coletivo. Não se esqueçam de que estão todos a construir, enquanto navegam, a jangada que vai levar-nos, a todos nós, a bom porto.

Procurem construir um escola online coerente. No princípio, cada professor, assustado com as suas próprias limitações, sentir-se-á impelido a “salvar-se por si ”. Aos poucos, no entanto, procurem construir e aperfeiçoar, por aproximações sucessivas, para toda a escola, um conjunto de protocolos comuns simples que sejam fáceis de compreender por toda a gente (professores, alunos, pais e funcionários). Essa coerência poderá ser criada em torno da plataforma de gestão da aprendizagem, se houver uma. Quanto mais coerente for a ação da escola, mais facilitada será a vida dos pais que têm vários filhos na mesma escola.

Acreditem que nada é impossível. Não se inibam de “pensar fora da caixa” e tentar soluções que nunca foram tentadas, como dividir os alunos em pequenas salas de debate, ou desafiar alunos a ajudarem online ou por telefone os colegas com mais dificuldades, ou criar pequenos grupos para alunos que necessitam de ajuda extra em tópicos específicos. 

Vão devagar, para bem de todos. Não é possível ensinar ao ritmo do ensino presencial. Quando a videoconferência e o estudo em casa deixarem de ser novidade, haverá uma quebra de entusiasmo. Alguns alunos que eram extrovertidos na sala de aula vão apagar-se online, e irão surgindo muitas outras surpresas. Tudo isso é normal. Procurem desenvolver sensibilidade para diagnosticar a compreensão e acompanhamento dos alunos, e aceitem repetir uma ou outra aula, com novos incentivos, se for caso disso. Como numa guerra de guerrilha, há que avançar, recuar, reagrupar, avançar outra vez. E há que renovar sempre, com perseverança, o entusiasmo da escola, dos alunos e dos pais.

(Foto do autor)



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7 Responses to Educação a Distância de Emergência – 6 Sugestões

  1. José Louro diz:

    Gostei. Tenho mesmo de ir devagar para o bem de todos, mas estou a ver muita gente a ir depressa! Vou tentar seguir os passos. Grato.

  2. Antonio Dias de Figueiredo diz:

    Obrigado pelo comentário! Votos de que corra tudo bem.

  3. Hugo Oliveira diz:

    Texto muito interessante! Tópicos sábios….

  4. Lúcia Ribeiro diz:

    35 anos de ensino presencial tão longe do que nos está a ser pedido! Os seus textos são uma inspiração, para quer pretende acalmar o desassossego em que estamos mergulhados, mas com muita vontade de caminhar rumo ao novo paradigma. Faltava o o ponto zénite.

  5. Maria de Jesus diz:

    Li o texto e achei-o muito pertinente e esclarecedor. Salientando a última parte, partilho da opinião do autor, quando diz que devemos ir devagar! O que eu acho é que muitos estão exatamente a fazer o contrário, indo demasiado rápido, num afã de mostrar conhecimentos tecnológicos, sem avaliar se serão os mais adequados ao processo ensino-aprendizagem. A meu ver, o facto de “ir com muita sede ao pote” pode trazer resultados contraproducentes para o processo ensino-aprendizagem.

  6. Antonio Dias de Figueiredo diz:

    Muito obrigado pelo “feedback”, Lúcia. Fico contente por poder inspirar os professores neste momento tão difícil. É sinal de que, apesar de dedicado a outras investigações, ainda consigo sentir-me próximo das salas de aula…

  7. Clara Wildschütz diz:

    Excelente pensamento!
    Muito bom texto!
    Parabéns!
    Revejo-me nestas deambulações do E@D de um “click” mas com trabalho redobrado, cada vez mais “psicóloga” (que não sou), professora, amiga, distribuidora de “arcos-iris” coloridos para enfeitar o dia dos que se sentem sós, perdidos, desanimados nesta nova estrada rumo à escola… digital!
    Revejo a situação de alunos brilhantíssimos em espaço sala de aula que agora nem os ouço e muito menos os vejo, uma vez que na minha escola a proteção de dados não permite a visualização direta de rostos.
    Quanto a mim, faltam-me os afetos, faltam-me os sorrisos, faltam-me os olhares que me diziam sem palavras se percebiam ou não, se tinham dúvidas, se estavam contentes ou até tristes, ai, os olhares brilhantes de mentes brilhantes, todas elas mentes brilhantes, cada qual à sua maneira!…
    Como posso identificar se um aluno tem problemas que até podem não ser escolares??? Difícil de resolver, difícil de ajudar!!!
    Difícil o discernimento por detrás de um teclado, de umas letras escritas, sabe-se lá como, em que condições, com que vontades!!!
    Mas acima de tudo, faltam-me mesmo são os SORRISOS!
    E os abraços!
    E os olhares contrariados de quem ainda não entende que nós, os professores, os amamos como uma mãe ou como um pai, que lhes queremos muito bem! Que lhes queremos e desejamos um futuro risonho e feliz!
    Falta-me tanta interação presencial, mas não podemos baixar os braços!
    Estamos aqui!
    Por eles, por nós, por todos!

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