{"id":541,"date":"2020-05-09T09:40:37","date_gmt":"2020-05-09T08:40:37","guid":{"rendered":"http:\/\/adfig.com\/pt\/?p=541"},"modified":"2020-05-09T10:49:49","modified_gmt":"2020-05-09T09:49:49","slug":"que-educacao-para-a-era-pos-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/adfig.com\/pt\/?p=541","title":{"rendered":"Que Educa\u00e7\u00e3o para a Era P\u00f3s-Covid-19?"},"content":{"rendered":"\n<p>Este texto reune as ideias que apresentei em 8 de Maio de 2020 na <a href=\"https:\/\/www.upt.pt\/noticia.php?n=5883\">semana virtual<\/a> do Departamento de Ci\u00eancia e Tecnologia da Universidade Portucalense, onde procurei apontar algumas mudan\u00e7as chave a imprimir \u00e0 educa\u00e7\u00e3o em Portugal na era p\u00f3s-Covid-19. Nele abordo a autonomia das escolas, a sua futura dimens\u00e3o online, a apropria\u00e7\u00e3o cultural do telem\u00f3vel para a educa\u00e7\u00e3o e o papel da televis\u00e3o como elemento chave de uma desej\u00e1vel educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o escolar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1001\" data-attachment-id=\"551\" data-permalink=\"https:\/\/adfig.com\/pt\/?attachment_id=551\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Lousa-e-Telemovel-DSCF3950.jpeg?fit=1500%2C1001&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1500,1001\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;4&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;X-T20&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;1589020326&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;35&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;1250&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0.0055555555555556&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"Lousa-e-Telemovel-DSCF3950\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Lousa-e-Telemovel-DSCF3950.jpeg?fit=300%2C200&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Lousa-e-Telemovel-DSCF3950.jpeg?fit=640%2C427&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Lousa-e-Telemovel-DSCF3950.jpeg?fit=640%2C427\" alt=\"\" class=\"wp-image-551\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Lousa-e-Telemovel-DSCF3950.jpeg?w=1500&amp;ssl=1 1500w, https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Lousa-e-Telemovel-DSCF3950.jpeg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Lousa-e-Telemovel-DSCF3950.jpeg?resize=1024%2C683&amp;ssl=1 1024w, https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Lousa-e-Telemovel-DSCF3950.jpeg?resize=768%2C513&amp;ssl=1 768w, https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Lousa-e-Telemovel-DSCF3950.jpeg?w=1280 1280w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>1. A autonomia das escolas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Antes desta pandemia, o relat\u00f3rio <a href=\"http:\/\/www.oecd.org\/education\/talis\/TALIS2018_insights_and_interpretations.pdf\">TALIS 2018<\/a>, publicado em 2020, colocava a autonomia dos professores portugueses na posi\u00e7\u00e3o mais baixa de todos pa\u00edses da OCDE. Apesar dessa falta de autonomia, um m\u00eas depois da transi\u00e7\u00e3o for\u00e7ada para o espa\u00e7o online, as aulas das escolas portuguesas, praticamente desligadas do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e entregues \u00e0 iniciativa dos professores, funcionavam acima de todas as expectativas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, muitos alunos n\u00e3o tinham computadores em casa nem acesso \u00e0 Internet e os servidores da maioria das escolas eram antiquados e vergavam sob a carga das transfer\u00eancias. Mesmo assim, os professores n\u00e3o baixaram os bra\u00e7os e ao fim de alguns dias o tr\u00e1fego escolar online tinha atingido n\u00edveis nunca vistos. Entretanto, professores, escolas, pais, autarquias e algumas empresas desdobravam-se em iniciativas para levarem PCs, tabletes e conectividade aos alunos isolados, que os professores tentavam incorporar no movimento.<\/p>\n\n\n\n<p>E no pa\u00eds vizinho, o que ter\u00e1 acontecido? Em Espanha, segundo afirmava Andreas Schleicher, diretor de educa\u00e7\u00e3o da OCDE numa <a href=\"https:\/\/elpais.com\/sociedad\/2020-04-22\/los-docentes-deberan-cambiar-su-forma-de-ensenar-en-septiembre.html\">entrevista ao El Pa\u00eds<\/a>, os esfor\u00e7os que o governo investiu na transi\u00e7\u00e3o para a dist\u00e2ncia esbarraram frontalmente contra o desinteresse da maioria dos professores. Desinteresse esse agravado pela falta de tradi\u00e7\u00e3o de colabora\u00e7\u00e3o e partilha de solu\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas entre os professores, um indicador onde a Espanha pontua muito abaixo da m\u00e9dia dos pa\u00edses da OCDE.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em Portugal, do lado de c\u00e1 da fronteira, as redes sociais fervilhavam de colabora\u00e7\u00e3o, com os professores a convergirem e colaborarem num conjunto restrito de grupos online, alguns dos quais adquiriram em poucos dias dezenas de milhares de membros.<\/p>\n\n\n\n<p>Como se explica este prod\u00edgio portugu\u00eas? O que aconteceu foi que, ao reduzir a pesada linha de comando que ligava o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o \u00e0s escolas, a pandemia devolveu aos professores uma iniciativa que h\u00e1 muito lhes tinha sido retirada e libertou a sua criatividade e talento para projetos pedag\u00f3gicos de escola desobrigados de estreitas diretrizes vindas \u201cde cima\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A moral desta experi\u00eancia \u00e9 que seria uma trag\u00e9dia para a educa\u00e7\u00e3o em Portugal se o espantoso capital de iniciativa e energia dos professores, que este per\u00edodo de emerg\u00eancia revelou, n\u00e3o fosse posto de imediato ao servi\u00e7o de uma nova vis\u00e3o da autonomia das escolas em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira evid\u00eancia que este per\u00edodo de pandemia revelou para a educa\u00e7\u00e3o em Portugal foi, assim, a da <strong>necessidade de uma autonomia inteiramente nova para as escolas portuguesas<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. Uma dimens\u00e3o online para as escolas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As escolas nacionais, tal como as escolas de quase todo o mundo, n\u00e3o estavam preparadas para a s\u00fabita transi\u00e7\u00e3o para a dist\u00e2ncia. Compreende-se, por isso, que tenham tido grande dificuldade em adaptar-se. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se compreenderia, no entanto, se agora que se prev\u00eaem novos surtos e se <a href=\"https:\/\/www.gcrpolicy.com\/understand-overview\">antecipam<\/a> novas pandemias e cat\u00e1strofes clim\u00e1ticas, as institui\u00e7\u00f5es continuassem a n\u00e3o fazer nada e, quando as cat\u00e1strofes surgissem, alegassem que n\u00e3o estavam a contar com elas. Errar \u00e9 humano, mas cometer duas vezes o mesmo erro \u00e9 incompet\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Justifica-se assim que as escolas, tirando partido da experi\u00eancia de terreno que est\u00e3o a desenvolver neste momento, comecem a construir desde j\u00e1 o seu prolongamento online permanente, que possa ser posto \u00e0 carga plena se, e quando, vier a ser necess\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 de esperar, assim, que cada escola, ou cada agrupamento, passe a ter uma infraestrutura tecnol\u00f3gica de gest\u00e3o de aprendizagem (LMS), uma sele\u00e7\u00e3o de tecnologias regularmente atualizadas, um reposit\u00f3rio crescente de conte\u00fados, um acervo crescente de pr\u00e1ticas, e toda uma cultura de partilha entre professores, entre professores, alunos e encarregados de educa\u00e7\u00e3o, e entre escola e sociedade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Daqui resulta a segunda evid\u00eancia para a educa\u00e7\u00e3o revelada por este per\u00edodo de pandemia: a <strong>necessidade de constituir e explorar, em cada escola ou agrupamento, uma infraestrutura tecnol\u00f3gica sustent\u00e1vel e um padr\u00e3o de pr\u00e1ticas regulares que prolonguem a escola, de forma permanente, para o espa\u00e7o online<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Este prolongamento seria o embri\u00e3o de uma unidade de liga\u00e7\u00e3o da escola com a sua comunidade interna e externa, de refor\u00e7o da sua imagem institucional e, acima de tudo, de educa\u00e7\u00e3o online e de <em>b-learning<\/em>, a usar sempre que desej\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>No \u00e2mbito dessa presen\u00e7a online, seria <strong>importante que a escola come\u00e7asse a desenvolver as compet\u00eancias dos seus docentes para ensinarem online<\/strong>, n\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es improvisadas, de emerg\u00eancia, mas de forma sustentada e com a qualidade e profissionalismo que o mundo de hoje exige e a compet\u00eancia pedag\u00f3gica dos educadores experimentados coloca ao seu alcance.&nbsp;Um bom professor do s\u00e9culo XXI dever\u00e1, idealmente, ser um bom professor tanto presencialmente como online.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. As tecnologias na educa\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Existem duas tradi\u00e7\u00f5es da utiliza\u00e7\u00e3o das tecnologias nas escolas em Portugal: a dos computadores pessoais e a dos equipamentos configur\u00e1veis.&nbsp;A tradi\u00e7\u00e3o dos computadores pessoais remonta ao in\u00edcio dos anos oitenta e privilegia o uso dos computadores na perspectiva do utilizador. \u00c0 medida que as tecnologias evolu\u00edram, esta tradi\u00e7\u00e3o estendeu-se para a explora\u00e7\u00e3o online e nos \u00faltimos anos come\u00e7ou a integrar tamb\u00e9m o recurso a tabletes.<\/p>\n\n\n\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o dos equipamentos configur\u00e1veis, mais recente, baseia-se no recurso a computadores em circuito impresso, ou micro-controladores, como o Arduino, Raspberry Pi, BeagleBone, Nanode e outros. Estes equipamentos s\u00e3o a base de riqu\u00edssimos contextos de aprendizagem baseada em projetos, de cria\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es inform\u00e1ticas e rob\u00f3ticas e de aprendizagem da programa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O telem\u00f3vel manteve-se conspicuamente afastado desta realidade. No ano 2000, come\u00e7aram a surgir telem\u00f3veis nas m\u00e3os dos alunos, e a sua presen\u00e7a nas escolas tornou-os de imediato em elementos de perturba\u00e7\u00e3o e conflito. Em muitas escolas, passaram, mesmo, a ser proibidos. Com a emerg\u00eancia dos <em>smartphones<\/em>, surgiram alguns projetos interessantes em escolas portuguesas e a UNESCO publicou, em 2013, <a href=\"https:\/\/unesdoc.unesco.org\/ark:\/48223\/pf0000227770\">um estudo<\/a> que incentivava o seu uso na educa\u00e7\u00e3o, mas as limita\u00e7\u00f5es de que ainda padeciam n\u00e3o estimularam a sua adop\u00e7\u00e3o para utiliza\u00e7\u00f5es pedag\u00f3gicas regulares.<\/p>\n\n\n\n<p>Acontece que, nos \u00faltimos dois anos, as caracter\u00edsticas t\u00e9cnicas e os pre\u00e7os dos <em>smartphones<\/em> transformaram radicalmente o seu potencial como instrumentos de aprendizagem para os tempos que vivemos. \u00c9 hoje poss\u00edvel adquirir por cerca de 200 \u20ac, ainda sem desconto de quantidade, <em>smartphones<\/em> com c\u00e2maras de alta qualidade, ecr\u00e3s de 6.3\u201d, 6 GB de RAM e mem\u00f3ria de 128 a 256 GB.&nbsp;Por outro lado, a sua utiliza\u00e7\u00e3o pela faixa et\u00e1ria escolar tornou-se quase total. Segundo a Marktest, citada pela <a href=\"https:\/\/marketeer.sapo.pt\/7-milhoes-de-portugueses-tem-smartphone\">revista Marketeer<\/a> em agosto de 2018, a utiliza\u00e7\u00e3o de <em>smartphones<\/em> superava os 99% junto dos jovens portugueses entre os 10 e os 24 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Um <em>smartphone<\/em> serve, hoje, para tudo. \u00c9 livro, dicion\u00e1rio, enciclop\u00e9dia, biblioteca, c\u00e2mara fotogr\u00e1fica, laborat\u00f3rio fotogr\u00e1fico, c\u00e2mara de v\u00eddeo, est\u00fadio de cinema, sala de aula, oficina de artes gr\u00e1ficas, digitalizador de texto e imagem, reda\u00e7\u00e3o de jornal, sala de reuni\u00f5es, museu, calculadora cient\u00edfica e gr\u00e1fica, ambiente de c\u00e1lculo matem\u00e1tico, sistema de gest\u00e3o de bases de dados, processador de texto, folha de c\u00e1lculo, instrumento de comunica\u00e7\u00e3o, equipamento de medida, simulador, coletor de dados biol\u00f3gicos, identificador de plantas e animais, instrumento de diagn\u00f3stico de doen\u00e7as, mapa, atlas, b\u00fassola, instrumento de navega\u00e7\u00e3o &#8230;  A lista \u00e9 intermin\u00e1vel!<\/p>\n\n\n\n<p>Uma crian\u00e7a de catorze anos que viajasse para um planeta desconhecido levando no bolso um telem\u00f3vel destes, e que o usasse nas fun\u00e7\u00f5es acima mencionadas, seria vista como um prod\u00edgio. Uma crian\u00e7a dos nossos dias, com um telem\u00f3vel destes na m\u00e3o, \u00e9, de facto, um prod\u00edgio \u2026 se souber utiliz\u00e1-lo. Mas saber\u00e1 utiliz\u00e1-lo em todas essas fun\u00e7\u00f5es? Se sabe, quem a ensinou? Certamente que n\u00e3o foi a escola!&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, se n\u00e3o foi a escola, haver\u00e1 crian\u00e7as mais favorecidas que se transformam em prod\u00edgios porque algu\u00e9m as ensinou, e haver\u00e1 crian\u00e7as menos favorecidas que n\u00e3o ser\u00e3o prod\u00edgios porque a escola n\u00e3o as ensinou. A simples exist\u00eancia de telem\u00f3veis no mundo de hoje, gostemos deles, ou n\u00e3o, pode criar desigualdades gritantes se a escola lhes voltar as costas.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro aspeto a ter em conta \u00e9 o da ciberseguran\u00e7a. N\u00e3o caber\u00e1 \u00e0 escola desenvolver as compet\u00eancias essenciais das crian\u00e7as para esta dimens\u00e3o chave do mundo de hoje? Se sim, far\u00e1 algum sentido a escola ensinar as pr\u00e1ticas do uso do telem\u00f3vel sem o integrar plenamente na sua atividade? Se n\u00e3o integrar o telem\u00f3vel nas suas pr\u00e1ticas, como \u00e9 que a escola ensinar\u00e1 ciberseguran\u00e7a? Fazendo palestras e proje\u00e7\u00f5es de slides?<\/p>\n\n\n\n<p>O que se torna hoje evidente \u00e9 que o telem\u00f3vel se transformou no mais poderoso instrumento pessoal de liga\u00e7\u00e3o entre o ser humano e o mundo. Por isso, ou a escola inscreve o telem\u00f3vel nas suas pr\u00e1ticas, ou corre o risco de, como escola, reduzir a sua relev\u00e2ncia para o mundo. Por muito que nos custe reconhec\u00ea-lo, o acesso ao mundo de hoje est\u00e1 cada vez mais no telem\u00f3vel e cada vez menos nas pr\u00e1ticas da aula tradicional.<\/p>\n\n\n\n<p>E os computadores? Ao contr\u00e1rio do que aconteceria com o telem\u00f3vel, os computadores s\u00e3o usados nas escolas como meros instrumentos. N\u00e3o promovem, nem poderiam promover, uma interioriza\u00e7\u00e3o cultural porque n\u00e3o se inscrevem em pr\u00e1ticas sociais regulares, intensivas e permanentes. Ora, a Hist\u00f3ria da Humanidade mostra-nos que os seres humanos se mantiveram primitivos enquanto se limitaram a explorar as tecnologias como instrumentos, sem as consolidarem em torno de pr\u00e1ticas socioculturais plenas, como as que, s\u00f3 mais tarde, conduziram \u00e0 descoberta da agricultura e das ind\u00fastrias.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u00fanico instrumento suscept\u00edvel de apropria\u00e7\u00e3o cultural plena, porque \u00e9 pessoal e se integra na viv\u00eancia do dia-a-dia, onde quer que estejamos, \u00e9 o telem\u00f3vel. Em boa verdade, o telem\u00f3vel \u00e9 o \u00fanico instrumento pessoal universal para a literacia digital, quer seja usado por crian\u00e7as, por adultos ou por pessoas idosas.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali\u00e1s, n\u00e3o deixa de ser ir\u00f3nico pensar que muitas das dificuldades que vivemos nestes tempos de transi\u00e7\u00e3o for\u00e7ada para o espa\u00e7o online teriam sido evitadas se as crian\u00e7as das nossas escolas j\u00e1 fossem os tais prod\u00edgios de telem\u00f3vel no bolso. Mesmo que alguns dos seus equipamentos fossem limitados, e as condi\u00e7\u00f5es de acesso problem\u00e1ticas, uma compra maci\u00e7a de <em>smartphones<\/em> e de contas de dados teria sido muito mais f\u00e1cil e econ\u00f3mica do que a aquisi\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica de computadores pessoais cujas manuten\u00e7\u00f5es vir\u00e3o a ser problem\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Daqui resulta mais uma evid\u00eancia para a educa\u00e7\u00e3o, tornada clara por este per\u00edodo de pandemia: a<strong> import\u00e2ncia de encetar um percurso gradual de apropria\u00e7\u00e3o cultural do telem\u00f3vel para a pr\u00e1tica pedag\u00f3gica<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta apropria\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil nem r\u00e1pida. Envolve um projeto muito ambicioso de renova\u00e7\u00e3o dos curr\u00edculos e das pr\u00e1ticas escolares em torno do uso do telem\u00f3vel. Em alguns dom\u00ednios do saber, como a Matem\u00e1tica, h\u00e1 muito trabalho j\u00e1 feito, no \u00e2mbito de solu\u00e7\u00f5es poderosas, como as do Wolfram Alpha. Noutros dom\u00ednios, h\u00e1 algum trabalho internacional valioso, que apenas tem de ser transposto para portugu\u00eas. Mas noutros dom\u00ednios haver\u00e1 que come\u00e7ar do zero, uma tarefa dif\u00edcil, mas tamb\u00e9m aliciante porque abre perspectivas para inovar a n\u00edvel internacional.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. Brevemente numa televis\u00e3o perto de si<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As sociologias da inova\u00e7\u00e3o dizem-nos que em sistemas sociais complexos onde a diversidade dos atores cresce e a intera\u00e7\u00e3o entre atores se intensifica, a tend\u00eancia para emergirem fen\u00f3menos de inova\u00e7\u00e3o tende a aumentar. O lan\u00e7amento da iniciativa #EstudoEmCasa, uma varia\u00e7\u00e3o da extinta Telescola, parece configurar um destes fen\u00f3menos. Acolhida de forma <a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2020\/04\/22\/impar\/noticia\/estudoemcasa-tambem-ja-conquistou-nao-vai-escola-1913347\">globalmente positiva<\/a>, n\u00e3o apenas pelos alunos a quem se destinava, mas tamb\u00e9m pelos pais e av\u00f3s, o modelo do #EstudoEmCasa pode vir a ser um contributo relevante para uma educa\u00e7\u00e3o que transcenda o meio escolar.<\/p>\n\n\n\n<p>Num pa\u00eds onde a televis\u00e3o penetra por todo o lado, mas onde existem grandes desequil\u00edbrios no acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o por v\u00e1rios sectores da sociedade, o recurso a um espa\u00e7o p\u00fablico de educa\u00e7\u00e3o televisiva de qualidade poderia contribuir de forma transformadora para a melhoria da qualidade de vida de v\u00e1rias popula\u00e7\u00f5es.&nbsp;Desde logo, para preencher um espa\u00e7o deixado vazio no que se refere \u00e0 literacia da leitura e da escrita, sobretudo para os mais idosos, mas tamb\u00e9m para auxiliar a superar as car\u00eancias crescentes de literacia digital, num pa\u00eds e num mundo onde a incapacidade para usar meios digitais se tornou gravemente debilitante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 chocante que um cidad\u00e3o seja hoje legalmente obrigado a recorrer a servi\u00e7os online, para os quais n\u00e3o tem alternativa, sem que o Estado tenha assumido, alguma vez, a responsabilidade de o educar para o efeito.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Daqui resulta mais evid\u00eancia para a educa\u00e7\u00e3o, que este per\u00edodo de pandemia tornou clara. A <strong>import\u00e2ncia de manter um servi\u00e7o pedag\u00f3gico televisivo de alta qualidade para as popula\u00e7\u00f5es desejosas de aprenderem, mas que n\u00e3o t\u00eam alternativas<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, s\u00e3o estes os desafios que se colocam \u00e0 educa\u00e7\u00e3o em Portugal a partir do pr\u00f3ximo m\u00eas de setembro:<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\"><li><strong>Refor\u00e7ar radicalmente a autonomia nas escolas.<\/strong><\/li><li><strong>Assegurar que cada escola ou agrupamento constitui uma infraestrutura tecnol\u00f3gica sustent\u00e1vel e um padr\u00e3o de pr\u00e1ticas que a prolongue de forma permanente para o espa\u00e7o online.<\/strong><\/li><li><strong>Desenvolver de forma gradual a compet\u00eancia dos professores para a educa\u00e7\u00e3o online.<\/strong><\/li><li><strong>Iniciar um percurso gradual de apropria\u00e7\u00e3o cultural do telem\u00f3vel para a pr\u00e1tica pedag\u00f3gica.<\/strong><\/li><li><strong>Manter um servi\u00e7o p\u00fablico, pedag\u00f3gico, televisivo de alta qualidade para as popula\u00e7\u00f5es que pretendam aprender mas n\u00e3o t\u00eam alternativas e assegurar, desde j\u00e1, atrav\u00e9s desse servi\u00e7o, um programa de alfabetiza\u00e7\u00e3o e de literacia digital.<\/strong><\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>(Foto do autor)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este texto reune as ideias que apresentei em 8 de Maio de 2020 na semana virtual do Departamento de Ci\u00eancia e Tecnologia da Universidade Portucalense, onde procurei apontar algumas mudan\u00e7as chave a imprimir \u00e0 educa\u00e7\u00e3o em Portugal na era p\u00f3s-Covid-19. &hellip; <a href=\"https:\/\/adfig.com\/pt\/?p=541\">Continuar a ler <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[25,17,24],"class_list":["post-541","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","tag-covid19","tag-educacao","tag-escolas"],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/p6czKW-8J","jetpack-related-posts":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/adfig.com\/pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/541"}],"collection":[{"href":"https:\/\/adfig.com\/pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/adfig.com\/pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/adfig.com\/pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/adfig.com\/pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=541"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/adfig.com\/pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/541\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":557,"href":"https:\/\/adfig.com\/pt\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/541\/revisions\/557"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/adfig.com\/pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=541"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/adfig.com\/pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=541"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/adfig.com\/pt\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=541"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}