{"id":642,"date":"2020-10-18T17:33:00","date_gmt":"2020-10-18T16:33:00","guid":{"rendered":"http:\/\/adfig.com\/pt\/?p=642"},"modified":"2023-12-27T19:06:47","modified_gmt":"2023-12-27T19:06:47","slug":"a-universidade-em-tempos-de-incerteza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/adfig.com\/pt\/?p=642","title":{"rendered":"A Universidade em Tempos de Incerteza"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Nos \u00faltimos trinta anos houve tr\u00eas oportunidades hist\u00f3ricas para as universidades se renovarem para o s\u00e9culo XXI. A primeira surgiu nos anos noventa, com a cria\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o moderna, que as universidades insistiram em n\u00e3o assumir, fomentando assim o assalto ao poder universit\u00e1rio pelas solu\u00e7\u00f5es empresariais. A segunda aconteceu em meados da d\u00e9cada de 2000, com a reforma de Bolonha, que tamb\u00e9m se perdeu, desta vez em indefini\u00e7\u00f5es e ambiguidades. A terceira apresenta-se agora aos nossos olhos sob a forma de uma crise: a crise da pandemia. Seremos capazes de aproveitar esta terceira oportunidade?<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Amphitheatre.jpeg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"427\" data-attachment-id=\"733\" data-permalink=\"https:\/\/adfig.com\/pt\/?attachment_id=733\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Amphitheatre.jpeg?fit=1017%2C678&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1017,678\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"Amphitheatre\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Amphitheatre.jpeg?fit=300%2C200&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Amphitheatre.jpeg?fit=640%2C427&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Amphitheatre.jpeg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-733\" style=\"width:630px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Amphitheatre.jpeg?w=1017&amp;ssl=1 1017w, https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Amphitheatre.jpeg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Amphitheatre.jpeg?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cr\u00e9ditos: Image Creator<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong>1. A oportunidade perdida da gest\u00e3o moderna<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas dos pilares decisivos do s\u00e9culo XXI surgiram em meados do s\u00e9culo XX. Um deles foram as ci\u00eancias e tecnologias da informa\u00e7\u00e3o, surgidas nos anos quarenta com a inven\u00e7\u00e3o do computador digital. Outro foram as ci\u00eancias e tecnologias da vida, surgidas nos anos cinquenta com a descoberta da estrutura do DNA, em 1953. O terceiro pilar foi a gest\u00e3o moderna, marcada pela publica\u00e7\u00e3o, por Peter Drucker, em 1954, do livro&nbsp;<em>The Practice of Management<\/em>. Estes tr\u00eas pilares transformaram o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando, nos anos setenta, as empresas mundiais mais inovadoras come\u00e7aram a reinventar-se \u00e0 luz deste terceiro pilar, as universidades ignoraram a oportunidade, embora j\u00e1 fossem vulgares os protestos contra a sua presta\u00e7\u00e3o. Os estudantes queixavam-se de salas superlotadas, docentes indiferentes \u00e0 pedagogia, excesso de teoria relativamente \u00e0 pr\u00e1tica, avalia\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1rias e planos de estudo incoerentes. Os recrutadores queixavam-se da falta de sentido pr\u00e1tico dos graduados, da sua pobreza de atitudes e valores e do desajuste dos planos de estudos relativamente \u00e0s necessidades do mercado. Por seu turno, os governos e os contribuintes queixavam-se do amadorismo e falta de transpar\u00eancia da gest\u00e3o universit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><meta charset=\"utf-8\"><strong>&#8220;<em>Num mundo que \u00e9 hoje de presen\u00e7a e dist\u00e2ncia, onde a <\/em><br><em>aprendizagem acontece cada vez mais \u00e0 dist\u00e2ncia, a universidade <\/em><br><em>n\u00e3o pode deixar de se prolongar para a dist\u00e2ncia<\/em>&#8220;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Abria-se nessa altura uma oportunidade hist\u00f3rica para as universidades se transformarem por dentro, incorporando as din\u00e2micas da gest\u00e3o moderna, que refor\u00e7ariam as suas j\u00e1 consolidadas dimens\u00f5es acad\u00e9mica e cient\u00edfica. Ao voltarem as costas ao desafio, viram-se arrastadas pela onda de neoliberalismo que ent\u00e3o varreu as economias ocidentais e acabaram entregues a gestores que a converteram no arremedo de empresas que hoje conhecemos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>2. Bolonha e a reforma fracassada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A grande oportunidade de refundar para o s\u00e9culo XXI a pedagogia universit\u00e1ria na Europa surgiu com o Processo de Bolonha, cujo modelo pedag\u00f3gico rompia com os paradigmas do ensino e da centralidade do docente e adotava os paradigmas da aprendizagem e da centralidade do aluno.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, a prepara\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica da maioria dos docentes europeus era insuficiente para lhes permitir, sequer, compreender a diferen\u00e7a entre os dois paradigmas. Houve iniciativas europeias de grande m\u00e9rito, como o&nbsp;<em>Projeto Tuning<\/em>, que procuraram promover a prepara\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica para a transi\u00e7\u00e3o, mas s\u00f3 foram seguidas por quem tinha curiosidade \u2014 e muito pouca gente tinha curiosidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Faltou, por outro lado, o que os soci\u00f3logos da inova\u00e7\u00e3o chamam um&nbsp;<em>ponto de passagem obrigat\u00f3rio<\/em>, um condicionamento dos comportamentos que incitasse os participantes a transporem as suas pr\u00e1ticas para o modelo novo. O resultado foi que o sistema se manteve como estava, apenas com uma altera\u00e7\u00e3o de vocabul\u00e1rio que dava a ilus\u00e3o de que tinha mudado.<\/p>\n\n\n\n<p>Numa perspectiva de sociologia da inova\u00e7\u00e3o, os \u201cECTS\u201d e as \u201choras de contacto\u201d foram alguns dos&nbsp;<em>objetos de fronteira<\/em>&nbsp;(<em>boundary objects<\/em>) criados para assegurar que o sistema antigo se mantinha, dando a ilus\u00e3o de que era o novo. A inven\u00e7\u00e3o de um conjunto de opera\u00e7\u00f5es aritm\u00e9ticas de \u201cconvers\u00e3o\u201d tornou a ilus\u00e3o ainda mais cred\u00edvel, sugerindo que bastava fazer umas contas simples para ficar tudo resolvido. A oportunidade hist\u00f3rica para renovar a pedagogia universit\u00e1ria esvaiu-se assim num exerc\u00edcio de indefini\u00e7\u00e3o encoberto por artif\u00edcios lingu\u00edsticos e aritm\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>&#8220;a educa\u00e7\u00e3o exclusivamente \u00e0 dist\u00e2ncia s\u00f3 resulta para adultos <br>com elevados graus de disciplina e autonomia&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se as recomenda\u00e7\u00f5es originais de Bolonha tivessem sido postas em pr\u00e1tica e os respectivos procedimentos interiorizados, a transi\u00e7\u00e3o para a dist\u00e2ncia imposta pela pandemia teria sido relativamente simples, visto que quando os cursos se centram em objetivos de aprendizagem, em vez de em \u201cconte\u00fados a ministrar\u201d, \u00e9 relativamente f\u00e1cil reconfigurar os contextos (presenciais ou distantes) da sua lecciona\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>3. A pandemia e o fim da universidade artesanal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando a pandemia surgiu, transformou-se num teste de stress \u00e0 capacidade das institui\u00e7\u00f5es para responderem \u00e0 complexidade e incerteza do s\u00e9culo, com destaque para a economia, finan\u00e7as, seguran\u00e7a social, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Em todas essas frentes, as institui\u00e7\u00f5es revelaram graves fraquezas. Nas universidades, a pandemia deixou a descoberto duas grandes fragilidades. Por um lado, a inadequa\u00e7\u00e3o dos seus modelos organizacionais e pedag\u00f3gicos a uma geometria vari\u00e1vel de presen\u00e7a\/dist\u00e2ncia e sincronismo\/assincronismo. Por outro lado, uma not\u00f3ria inaptid\u00e3o pedag\u00f3gica para as formas n\u00e3o-presenciais de aprendizagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Curiosamente, os cursos das universidades portuguesas j\u00e1 tem h\u00e1 muito anos uma componente \u00e0 dist\u00e2ncia, que as universidades parecem desconhecer. Quando, nos anos noventa, as universidades instalaram plataformas online de gest\u00e3o de conte\u00fados, muitos dos alunos passaram a prescindir das aulas te\u00f3ricas e a frequentar apenas as aulas onde a sua participa\u00e7\u00e3o ativa era indispens\u00e1vel. Do ponto de vista dos alunos, o regime passou a ser de aprendizagem mista (<em>blended learning<\/em>), com componente te\u00f3rica online e componentes pr\u00e1ticas e laboratoriais presenciais. Para os professores, pelo contr\u00e1rio, tudo se manteve como dantes. Deste modo, os cursos s\u00e3o consumidos como mistos mas constru\u00eddos e planeados como presenciais, com defici\u00eancias graves que n\u00e3o existiriam se fossem concebidos para os fins a que se destinam.<\/p>\n\n\n\n<p>Num mundo que \u00e9 hoje de presen\u00e7a e dist\u00e2ncia, onde a aprendizagem acontece cada vez mais \u00e0 dist\u00e2ncia, a universidade n\u00e3o pode deixar de se prolongar para a dist\u00e2ncia. Precisa, por isso, de p\u00f4r em pr\u00e1tica as pedagogias de nova gera\u00e7\u00e3o desenvolvidas ao longo das tr\u00eas \u00faltimas d\u00e9cadas, que incorporam as novas realidades tecnol\u00f3gicas e sociais, os progressos das ci\u00eancias da educa\u00e7\u00e3o e as din\u00e2micas de ensino e aprendizagem nas quais a presen\u00e7a e a dist\u00e2ncia se completam. Este enquadramento implica, por sua vez, o desenvolvimento de org\u00e2nicas flex\u00edveis de gest\u00e3o de espa\u00e7os e tempos e novas abordagens para a concep\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o da qualidade dos cursos.<\/p>\n\n\n\n<p>No fracasso de Bolonha foi manifesta a inexist\u00eancia de um&nbsp;<em>ponto de passagem obrigat\u00f3rio<\/em>&nbsp;que condicionasse os comportamentos dos diversos atores e os incitasse a transitarem do modelo antigo para o modelo novo. No caso da pandemia, o&nbsp;<em>ponto de passagem obrigat\u00f3rio<\/em>&nbsp;existiu e foi ponderoso: o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia. Quer as universidade gostassem, quer n\u00e3o gostassem, quer soubessem, quer n\u00e3o soubessem, esse foi o \u00fanico percurso que puderam seguir. Que melhor est\u00edmulo poderia existir para investir com profissionalismo na refunda\u00e7\u00e3o dos modelos universit\u00e1rios \u00e0 luz deste desafio?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata, como \u00e9 \u00f3bvio, de prescindir da tradi\u00e7\u00e3o presencial da universidade. Pelo contr\u00e1rio, quanto maior for a incerteza dos tempos, mais ricas ter\u00e3o de ser as intera\u00e7\u00f5es no seio da comunidade de cultura e saber que \u00e9 a universidade. Acresce que a educa\u00e7\u00e3o exclusivamente \u00e0 dist\u00e2ncia s\u00f3 resulta para adultos com elevados graus de disciplina e autonomia, um p\u00fablico que tamb\u00e9m interessa \u00e0 universidade, mas que \u00e9 muito distinto do grosso da popula\u00e7\u00e3o que hoje a procura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><meta charset=\"utf-8\"><strong>&#8220;uma universidade que n\u00e3o assuma a nova universalidade <br>dos saberes e a abertura para um mundo que \u00e9 hoje de <br>presen\u00e7a e dist\u00e2ncia ser\u00e1 uma universidade paroquial&#8221;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Conv\u00e9m n\u00e3o esquecer, no entanto, que, no s\u00e9culo XII, o que distinguiu as primeiras universidades das escolas monacais que as precederam foi o seu car\u00e1cter universal e a sua abertura para o mundo. No s\u00e9culo XXI, uma universidade que n\u00e3o assuma a nova universalidade dos saberes e a abertura para um mundo que \u00e9 hoje de presen\u00e7a e dist\u00e2ncia ser\u00e1 uma universidade paroquial. Por isso, a universidade dos nossos tempos n\u00e3o poder\u00e1 deixar de se prolongar para a dist\u00e2ncia, a\u00ed construir parceiras e colabora\u00e7\u00f5es, a\u00ed assegurar presen\u00e7a e atra\u00e7\u00e3o, a\u00ed alargar os seus mercados e a\u00ed colocar os cursos que melhor a projectem para o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>4. Os desafios da dist\u00e2ncia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender, numa primeira aproxima\u00e7\u00e3o, o que est\u00e1 envolvido na transi\u00e7\u00e3o do modelo tradicional para os modelos que incorporam a dist\u00e2ncia, \u00e9 \u00fatil ter em conta seis vari\u00e1veis relevantes: simultaneidade, tempo, controlo, ritmo, tecnologia e empatia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Simultaneidade.&nbsp;<\/strong>Na aula tradicional, o professor explica e coloca desafios; o aluno ouve e reage aos desafios. Tudo acontece em simult\u00e2neo. Na educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia, professor e aluno raramente se encontram online. Na verdade, quanto mais maduros e aut\u00f3nomos s\u00e3o os alunos, mais prescind\u00edvel se torna a simultaneidade. Para um professor tradicional, a simultaneidade \u00e9 t\u00e3o essencial como o oxig\u00e9nio para respirar. Por isso, ao enfrentar a dist\u00e2ncia, agarra-se ao software de videoconfer\u00eancia como a uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o e, ao faz\u00ea-lo, transgride todos os princ\u00edpios da educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tempo.<\/strong>&nbsp;O tempo do professor tradicional \u00e9 o tempo do toque hor\u00e1rio, um padr\u00e3o herdado de h\u00e1 duzentos anos, quando a escola de massas foi concebida \u00e0 imagem das ind\u00fastrias de ent\u00e3o. Os tempos da aprendizagem \u00e0 dist\u00e2ncia s\u00e3o os tempos da cogni\u00e7\u00e3o humana, que a psicologia dos \u00faltimos cem anos e as neuroci\u00eancias das \u00faltimas d\u00e9cadas demostraram serem muito distintos dos tempos industriais do passado. M\u00f3dulos letivos de dez ou quinze minutos, intercalados com tarefas de realiza\u00e7\u00e3o aut\u00f3noma, podem ser incomparavelmente mais eficazes e estimulantes do que as solu\u00e7\u00f5es presenciais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Controlo.<\/strong>&nbsp;Por for\u00e7a da simultaneidade, o controlo das aulas tradicionais est\u00e1 fortemente centrado no professor, privilegiando a explica\u00e7\u00e3o e inibindo a autonomia do aluno.&nbsp;Na educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia, o controlo da aprendizagem pode ser aberto e evoluir para formas de colabora\u00e7\u00e3o, avalia\u00e7\u00e3o pelos pares e co-aprendizagem que refor\u00e7am a aprendizagem e incentivam o desenvolvimento da autonomia. A transi\u00e7\u00e3o para o ensino \u00e0 dist\u00e2ncia de emerg\u00eancia, em mar\u00e7o de 2020, teria sido muito mais f\u00e1cil se os jovens possu\u00edssem a autonomia que hoje n\u00e3o t\u00eam e que os mercados de trabalho tanto reclamam.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ritmo.&nbsp;<\/strong>A variedade de ritmos das aulas tradicionais \u00e9 delimitada pela exig\u00eancia da presen\u00e7a numa \u00fanica sala. No espa\u00e7o online, os ritmos s\u00e3o inesgot\u00e1veis. Recorrendo, por exemplo, \u00e0s pedagogias de projeto (<em>project based learning<\/em>), podem p\u00f4r-se os alunos a trabalhar autonomamente ou em grupos, s\u00f3 os reunindo presencial ou virtualmente no fim, para s\u00edntese e avalia\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m se podem inverter os ritmos de trabalho (<em>flipped learning<\/em>), facultando materiais que os alunos estudam autonomamente, ap\u00f3s o que reunem em plen\u00e1rio para debaterem, consolidarem e avaliarem os saberes adquiridos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tecnologia.<\/strong>&nbsp;O sentimento de inseguran\u00e7a gerado pela abrupta adop\u00e7\u00e3o das tecnologias leva alguns professores a usarem-nas em demasia na comunica\u00e7\u00e3o com os alunos. Ora a m\u00e1xima do recurso saud\u00e1vel \u00e0s tecnologias na educa\u00e7\u00e3o \u00e9 que essa intera\u00e7\u00e3o como professor seja t\u00e3o contida quanto poss\u00edvel, libertando os alunos para trabalharem autonomamente ou para interagirem com os colegas em trabalhos de grupo que eles pr\u00f3prios aprendam a gerir.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Empatia.<\/strong>&nbsp;Nas aulas presenciais, a liga\u00e7\u00e3o emocional entre professor e alunos \u00e9 espont\u00e2nea. Basta um olhar r\u00e1pido do professor pela sala para reconhecer o entusiasmo, a indiferen\u00e7a, a d\u00favida ou a desist\u00eancia de um aluno. Como na educa\u00e7\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia esses sinais n\u00e3o existem, \u00e9 importante que o professor projecte a sua empatia, mostrando que \u201cest\u00e1 l\u00e1\u201d, n\u00e3o em corpo, n\u00e3o em ecr\u00e3, mas pronto a acudir sempre que for necess\u00e1rio.&nbsp; \u00c0s vezes, basta uma palavra de incentivo, uma mensagem curta ou um telefonema a dizer \u201cgostei do teu trabalho!\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><strong>5. A ess\u00eancia do desafio<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>H\u00e1 trinta anos, as universidades perderam uma oportunidade \u00fanica para incorporarem a gest\u00e3o moderna nos seus modelos, abrindo assim as portas \u00e0s solu\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias neoliberais. Quinze anos depois, perderem a oportunidade que Bolonha lhes oferecia para renovarem as suas pedagogias. Ir\u00e3o elas ignorar agora a oportunidade de renova\u00e7\u00e3o que a pandemia lhes proporciona? Se o fizerem, n\u00e3o ir\u00e3o abrir as portas \u00e0s solu\u00e7\u00f5es universit\u00e1rias hiperliberais e uberizadas que se anunciam?<\/p>\n\n\n\n<p>[Nota \u2013 Este texto foi publicado originalmente no jornal&nbsp;<strong><em>sinalAberto<\/em><\/strong>&nbsp;de 17 de outubro de 2020]<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nos \u00faltimos trinta anos houve tr\u00eas oportunidades hist\u00f3ricas para as universidades se renovarem para o s\u00e9culo XXI. 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