{"id":648,"date":"2021-02-15T14:12:24","date_gmt":"2021-02-15T14:12:24","guid":{"rendered":"http:\/\/adfig.com\/pt\/?p=648"},"modified":"2023-12-27T19:05:22","modified_gmt":"2023-12-27T19:05:22","slug":"o-lugar-da-leitura-na-formacao-universitaria-atual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/adfig.com\/pt\/?p=648","title":{"rendered":"O Lugar da Leitura na Forma\u00e7\u00e3o Universit\u00e1ria Atual"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>A decad\u00eancia da leitura profunda gerou a decad\u00eancia da reflex\u00e3o cr\u00edtica. O cidad\u00e3o dos nossos dias n\u00e3o domina o pensamento cr\u00edtico porque n\u00e3o aprendeu a constru\u00ed-lo, autonomamente, pela leitura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Paulo Freire, um dos mais influentes pensadores da educa\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XX, autor da&nbsp;<em>Pedagogia do Oprimido<\/em>, encarava a educa\u00e7\u00e3o como parte de um projeto pol\u00edtico de liberta\u00e7\u00e3o da depend\u00eancia e da opress\u00e3o. Segundo ele, a educa\u00e7\u00e3o deve desenvolver nos cidad\u00e3os compet\u00eancias de autorreflex\u00e3o, autonomia e interven\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que os habilita a constru\u00edrem os seus pr\u00f3prios destinos e o bem coletivo. Para Freire, a aprendizagem n\u00e3o \u00e9 um simples meio de preparar cidad\u00e3os para empregos, mas um instrumento que os liberta das limita\u00e7\u00f5es da sua condi\u00e7\u00e3o e os habilita a conquistarem, individual e coletivamente, o poder para construirem o seu destino e intervirem no mundo.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Library-2.jpeg?ssl=1\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"426\" data-attachment-id=\"730\" data-permalink=\"https:\/\/adfig.com\/pt\/?attachment_id=730\" data-orig-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Library-2.jpeg?fit=1022%2C681&amp;ssl=1\" data-orig-size=\"1022,681\" data-comments-opened=\"1\" data-image-meta=\"{&quot;aperture&quot;:&quot;0&quot;,&quot;credit&quot;:&quot;&quot;,&quot;camera&quot;:&quot;&quot;,&quot;caption&quot;:&quot;&quot;,&quot;created_timestamp&quot;:&quot;0&quot;,&quot;copyright&quot;:&quot;&quot;,&quot;focal_length&quot;:&quot;0&quot;,&quot;iso&quot;:&quot;0&quot;,&quot;shutter_speed&quot;:&quot;0&quot;,&quot;title&quot;:&quot;&quot;,&quot;orientation&quot;:&quot;1&quot;}\" data-image-title=\"Library-2\" data-image-description=\"\" data-image-caption=\"\" data-medium-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Library-2.jpeg?fit=300%2C200&amp;ssl=1\" data-large-file=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Library-2.jpeg?fit=640%2C426&amp;ssl=1\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Library-2.jpeg?resize=640%2C426&#038;ssl=1\" alt=\"\" class=\"wp-image-730\" style=\"width:594px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Library-2.jpeg?w=1022&amp;ssl=1 1022w, https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Library-2.jpeg?resize=300%2C200&amp;ssl=1 300w, https:\/\/i0.wp.com\/adfig.com\/pt\/wp-content\/uploads\/2023\/12\/Library-2.jpeg?resize=768%2C512&amp;ssl=1 768w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/a><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cr\u00e9ditos: Image Creator<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>N\u00e3o surpreende, por isso, que um dos seus livros mais populares,&nbsp;<em>A Import\u00e2ncia do Ato de Ler<\/em>, se dedique ao papel-chave da leitura no contexto desse projeto de liberta\u00e7\u00e3o. Para Freire, o ato de ler \u201cn\u00e3o se esgota na descodifica\u00e7\u00e3o pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas antecipa-se e alonga-se na intelig\u00eancia do mundo\u201d e  &#8220;o contexto gera a compreens\u00e3o do texto, mas a leitura do texto enriquece a compreens\u00e3o do contexto&#8221;. Para se compreender o mundo e intervir na sua transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ler sobre ele em perman\u00eancia. Caso contr\u00e1rio, fica-se reduzido a um estatuto de depend\u00eancia e eventual opress\u00e3o, que ser\u00e1 tanto maior quanto maior for a ignor\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p>Infelizmente, as pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas dos nossos dias, ainda prisioneiras do modelo magistral medieval, contribuem para desincentivar a leitura. Ao assentarem na transposi\u00e7\u00e3o dos livros de estudo para a palavra oral do professor, libertam os estudantes do esfor\u00e7o de reflex\u00e3o aut\u00f3noma e cr\u00edtica a que a leitura os obrigaria, criando-lhes a convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o necessitam de pensar para aprenderem. Este regresso a um passado onde o discurso da oralidade dominava o discurso da leitura agravou-se com a banaliza\u00e7\u00e3o do discurso oral e visual dos multim\u00e9dia, generalizando uma pregui\u00e7a de pensar que exclui cada vez mais a leitura cr\u00edtica e reflexiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Cada \u00e9poca tem os seus modos de leitura. Na Antiguidade, lia-se em voz alta e estranhava-se a leitura silenciosa. Nos tempos do Iluminismo, censurava-se a leitura criativa e elogiava-se a leitura passiva. No s\u00e9culo XVIII, n\u00e3o se via com bons olhos que as mulheres lessem em privado, para que n\u00e3o escapassem pela leitura \u00e0s restri\u00e7\u00f5es moralistas da \u00e9poca. Nos nossos tempos, todos os modos de leitura s\u00e3o permitidos e cada um pratica os que quer. Por outro lado, observamos, com \u00e2nimo, que alguns dos jovens que comunicam superficialmente entre amigos, conseguem, quando querem, embrenhar-se na mais densa e apaixonada das leituras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Paradoxalmente, apesar da decad\u00eancia do cultivo da leitura como atividade nobre e continuada, nunca se leu tanto como hoje, gra\u00e7as a tr\u00eas novas formas de leitura: as <em>leituras fragmentadas<\/em>, as <em>leituras hipertextuais<\/em> e as <em>leituras digitais<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<p>As mensagens curtas integram-se plenamente numa \u00e9poca onde o esfor\u00e7o de pensar se tornou numa imensa ma\u00e7ada. Correspondem em larga medida \u00e0 faceta superficial e f\u00fatil das rela\u00e7\u00f5es sociais e a muitas das transa\u00e7\u00f5es simplificadas a que assistimos nas redes sociais. Em contrapartida, a poderosa org\u00e2nica das liga\u00e7\u00f5es Web d\u00e1 hoje acesso a grande parte do saber universal. Para aceder a esse saber, o leitor dos nossos dias tem de ir muito para al\u00e9m da leitura textual tradicional. Em particular, tem de saber construir e dominar com destreza os sistemas de pesquisa, curadoria, capta\u00e7\u00e3o e agrega\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o em que assenta o acesso aos inesgot\u00e1veis reposit\u00f3rios do saber online. Por outras palavras, o leitor dos nossos dias tem de aprender a ler, n\u00e3o apenas para as pr\u00e1ticas de leitura do passado, que, mesmo assim, domina mal, mas tamb\u00e9m para as pr\u00e1ticas de leitura online do presente e do futuro, que parece desconhecer por completo.<\/p>\n\n\n\n<p>O mesmo acontece com as leituras digitais. Um documento digital n\u00e3o \u00e9 a simples vers\u00e3o digital de um texto em papel. \u00c9 um ecossistema. Pode ser pesquisado pelo conte\u00fado, sublinhado, destacado a cores, anotado, rabiscado. Permite que durante a sua leitura se consultem diretamente dicion\u00e1rios, enciclop\u00e9dias e outros documentos de refer\u00eancia. Pode ser duplicado, lido e anotado em v\u00e1rias vers\u00f5es, com registo de distintas anota\u00e7\u00f5es em cada caso. Permite copiar partes do texto para ambientes onde queiramos trabalh\u00e1-las. Pode ser posicionado lado-a-lado com documentos com os quais queiramos confront\u00e1-lo. Pode ser recordado em minutos, anos ap\u00f3s a \u00faltima leitura, gra\u00e7as \u00e0s anota\u00e7\u00f5es que nele deix\u00e1mos. Pode ser lido \u00e0s escuras e ajustado em v\u00e1rios dos seus par\u00e2metros, como o tamanho das letras. Por outro lado, v\u00e1rias aplica\u00e7\u00f5es de leitura de documentos digitais, como as do&nbsp;<em>Kindle<\/em>, constroem automaticamente novos textos a partir das anota\u00e7\u00f5es, facultando novas formas de trabalho. Nos nossos dias, um universit\u00e1rio que n\u00e3o se movimente com desenvoltura nestas pr\u00e1ticas dificilmente poder\u00e1 afirmar que sabe ler. Pelo menos, n\u00e3o saber\u00e1 ler documentos digitais.<\/p>\n\n\n\n<p>A decad\u00eancia da leitura profunda gerou a decad\u00eancia da reflex\u00e3o cr\u00edtica. O cidad\u00e3o dos nossos dias n\u00e3o domina o pensamento cr\u00edtico porque n\u00e3o aprendeu a constru\u00ed-lo, autonomamente, pela leitura. Confinado que est\u00e1 \u00e0s limita\u00e7\u00f5es da sua viv\u00eancia pessoal, fechado \u00e0s leituras reais e imagin\u00e1rias que iriam abri-lo para o mundo, n\u00e3o reconhece a imensa diversidade desse mundo nem a complexidade dos sentimentos humanos, que apenas vislumbra pelos padr\u00f5es da sua limitada conviv\u00eancia do dia-a-dia. E como n\u00e3o aprendeu, pela leitura, a exprimir por palavras a riqueza e diversidade do mundo em que vive, n\u00e3o consegue sequer refletir sobre elas, visto que n\u00e3o h\u00e1 pensamento sem palavras que o sustentem. A sua incapacidade para ler criticamente o texto e o contexto fecha os seus horizontes e torna-o dependente, manipul\u00e1vel e vulner\u00e1vel a todas as falsas verdades.<\/p>\n\n\n\n<p>Por todas estas raz\u00f5es, o fator mais cr\u00edtico da forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria dos nossos dias \u00e9 dominar a Arte da Leitura, nas suas tr\u00eas vertentes. Por um lado, a <strong><em>leitura profunda<\/em><\/strong>, ativa e continuada, que herd\u00e1mos dos nossos antepassados, mas que estamos a desaprender, por falta de pr\u00e1tica. Por outro lado, a <strong><em>leitura do espa\u00e7o online<\/em><\/strong>, que inclui h\u00e1bitos de pesquisa, curadoria, capta\u00e7\u00e3o e agrega\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de refer\u00eancias. Um universit\u00e1rio dos nossos dias, perante o computador que o liga \u00e0 rede, \u00e9 como um piloto aos comandos do seu avi\u00e3o: com um simples olhar ou movimento de m\u00e3o tem acesso a uma imensidade de instrumentos que facilitam e enriquecem a sua tarefa. Finalmente, a arte da <strong><em>leitura digital<\/em><\/strong>: ler um documento digital como se fosse em papel, queixando-se de que a sua leitura \u00e9 inferior, \u00e9 n\u00e3o reconhecer as virtudes de nenhuma das leituras. \u00c9 como comparar uma viagem em carruagem de cavalo com uma viagem de autom\u00f3vel e concluir que a primeira \u00e9 melhor porque n\u00e3o gasta gasolina. S\u00f3 aprendendo a ler documentos digitais se poder\u00e1 tirar partido das suas riqu\u00edssimas virtudes.<\/p>\n\n\n\n<p>NOTA &#8211; Este texto foi originalmente publicado no Jornal MIL FOLHAS, da Biblioteca da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, em fevereiro de 2021 (https:\/\/www.uc.pt\/site\/assets\/files\/623129\/mil_folhas_n2.pdf).<\/p>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A decad\u00eancia da leitura profunda gerou a decad\u00eancia da reflex\u00e3o cr\u00edtica. 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