Incógnitas da Educação a Distância de Emergência

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Só colocando-nos na posição dos professores que ensinam online pela primeira vez conseguiremos compreender a confusão e insegurança que agora os assalta. Tal como eu dizia há dias, um professor é sempre um professor, quer use, quer não use as tecnologias: ninguém sabe melhor do que um professor o que é ensinar. No entanto, o universo onde o professor hoje se aventura é muito distinto do universo que lhe é familiar. Por isso procurarei realçar algumas fontes de insegurança que mais marcam as diferenças entre o ensino presencial e o ensino online. Tentarei fazê-lo com vagar e fugindo à tentação de esquematizar e resumir.

Simultaneidade

Na aula presencial típica, o professor fala e coloca desafios; o aluno ouve e reage aos desafios. Tudo acontece em simultâneo. As reações dos alunos, a sua linguagem corporal, o brilho dos seus olhos são elementos chave para o professor ajustar o ritmo da aula. A sua própria ligação afectiva à aula nasce em larga medida dessa proximidade física e emocional. Na educação online, pelo contrário, o professor e o aluno não precisam de estar online ao mesmo tempo. Quanto mais autónomos e maduros forem os alunos, mais prescindível se torna a simultaneidade. Por isso se fala de atividades síncronas e assíncronas.

Quando se retira ao professor tradicional a simultaneidade é como se se lhes retirasse o oxigénio de que necessita para respirar. Por isso, nos primeiros tempos, a primeira tábua de salvação a que se agarra é o software de videoconferência — Zoom, WebEx ou Skype — que lhe permite reconstruir a simultaneidade. Ora, com veremos, muito do potencial da educação a distância está em prescindir da simultaneidade, deixando que cada aluno progrida ao seu próprio ritmo.

Tempos

Os tempos do professor tradicional são os tempos do toque horário, um padrão herdado de há duzentos anos, quando a escola de massas foi concebida à imagem das empresas industriais de então. Os tempos da aprendizagem online são hoje os tempos da cognição humana, que a psicologia dos últimos cem anos e as neurociências das últimas décadas demostraram serem radicalmente distintos dos tempos industrias do passado.

Para se fazer ideia do absurdo de alguns dos tempos praticados em muitas das experiências de ensino a distância de emergência que estão a decorrer, vale a pena observar um quadro com os tempos de aprendizagem recomendados por uma vasta equipa de peritos de educação a quem o Illinois Sate Board of Education encomendou um conjunto de recomendações para a aprendizagem a distância neste período (Figura 1). Nesta tabela, os níveis mais baixos correspondem ao nosso pré-escolar e o mais elevado corresponde ao nosso 12º ano.

Figura 1 — Tempos máximos e mínimos de aprendizagem e durações
recomendadas par a atenção sustentada dos alunos

Controlo

Por força da simultaneidade, o controlo das aulas tradicionais está fortemente centrado nos professores. Se assim não fosse, as aulas rapidamente se tornariam caóticas e ninguém se entenderia. O principal problema deste modelo é que privilegia em excesso a explicação do professor sobre a autonomia do aluno, com consequências fortemente negativas, que discuto em pormenor noutros locais (por exemplo, em A Educação num Mundo Digital ou em A Pedagogia dos Contextos de Aprendizagem).  

Na educação a distância é possível flexibilizar e distribuir o controlo da aprendizagem, evoluindo para modelos pedagógicos de colaboração, avaliação pelos pares, co-aprendizagem e, mesmo, co-evolução. Este desenvolvimento reveste-se de importância chave porque incentiva a autonomia, uma das competências mais em falta nos jovens dos nossos dias. Em boa verdade, se os jovens de hoje possuíssem uma autonomia cognitiva e emocional à altura dos tempos que correm, e que os mercados de trabalho tanto reclamam (ver Que Competências para as Novas Gerações?), a transição para a educação a distância de emergência que agora estamos a viver seria muito mais fácil.

Ritmos

Os ritmos da aula tradicional são muito condicionados pelas exigências de simultaneidade e pela inerente necessidade de disciplina. No espaço online, as oportunidades são inesgotáveis. Podem dividir-se os alunos em “salas” virtuais, onde trabalham em grupos, juntando-os só depois no espaço coletivo, para debate e síntese. Podem definir-se projetos em que cada aluno faz a sua parte, segundo os princípios da aprendizagem baseada em projetos (project-based learning), reunindo-os depois para construirem e afinarem o todo e avaliarem e documentarem o projeto resultante.

Podemos, inclusivamente, inverter os ritmos de trabalho, pondo os alunos a aprenderem sozinhos o tema a estudar, recorrendo a vídeos ou a materiais que lhes facultamos previamente, reunindo-os só depois numa aula plenária onde exercitam e consolidam os saberes adquiridos. Esta modalidade invertida de aprendizagem (flipped learning), tem vindo a ganhar larga aceitação em vários países e níveis de ensino. No caso do ensino superior, por exemplo, chegam a organizar-se disciplinas inteiras segundo o modelo invertido (flipped courses): na primeira metade da disciplina, os alunos seguem autonomamente um curso online, que até pode ser de outra instituição; na segunda metade, realizam projetos que aplicam e consolidam os saberes adquiridos autonomamente na primeira parte. 

Tecnologias

Um dos efeitos da adopção forçada das tecnologias por quem não contava fazê-lo no imediato é que suscita incertezas quanto à intensidade com que deverá ser feita essa adopção. Na dúvida, e porque a insegurança pode ser grande, os professores que as adoptam tendem a convencer-se de que deverão ser usadas para tudo. Ora a máxima de uma utilização saudável das tecnologias na educação é que deverão ser usadas o menos possível: sem dúvida, quando forem indispensáveis, e são indispensáveis muitas vezes, mas não mais do que isso. Por alguma razão os magnatas mundiais das tecnologias se opõem a que os seus filhos as usem. 

Acresce que estudos recentes renovam as preocupações com os perigos para a saúde das radiações electromagnéticas. Daí resulta que a educação online deveria ser pautada pela moderação na presença à frente de ecrãs e teclados. Idealmente, os alunos deveriam dispensar as tecnologias tanto quanto possível e usá-las predominantemente como (poderosos) instrumentos locais, para fazer pesquisas, para enviar e receber trabalhos e para comunicar rapidamente com professores e colegas. A presença, durante horas, frente a um ecrã, em videoconferência, deveria ser evitada a todo o custo.

Empatia

Dizem que os grandes professores, tal como os grandes lideres, têm fartas reservas de empatia. Nas aulas tradicionais, a ligação emocional entre professor e alunos é espontânea. Quase sem se aperceber, o professor percorre a sala com os olhos e vê, em décimos de segundo, tal como o fotógrafo experimentado, tudo aquilo que ninguém vê: o brilho de um olhar, a dúvida, a perplexidade, a desistência.

No espaço online nada disso acontece, e essa é uma das maiores tragédias da migração para a educação a distância, porque é aí que a empatia faz mais falta. A ansiedade, a indiferença, a insegurança, a deserção, estão muitas vezes lá, e ninguém as vê. Como o amigo que tanto nos anima num momento difícil, mesmo sem dizer uma palavra, o professor tem de aspirar a essa magia: “estar lá!”, não em corpo, não em ecrã, mas em espírito. Às vezes, basta uma mensagem de duas linhas, uma palavra de incentivo, um telefonema inesperado a dizer “gostei muito do teu trabalho!”…

(Foto do autor)

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11 Responses to Incógnitas da Educação a Distância de Emergência

  1. Altina Marisa Boliqueime diz:

    Olá Professor
    Ao ler o seu texto parece que estou a ouvir a sua voz nas aulas, há muitos anos atrás. Um belíssimo texto de um brilhante professor/ comunicador.
    Será sempre um professor que ficou na minha memória.

  2. Antonio Dias de Figueiredo diz:

    Obrigado Altina! Gostei de a ver por estes lados 🙂

  3. Isabel Margarida diz:

    Estou a adorar cada aprendizagem que tiro da sua escrita.Grata pela partilha.

  4. Obrigado pela partilha!
    É muito interessante e muito útil para uma reflexão cuidada, especialmente nos tempos que correm.

  5. Antonio Dias de Figueiredo diz:

    Obrigado, Isabel Margarida! O meu grande desejo é inspirar quem está no terreno a lutar por uma nova geração mais sabedora e mais humana.

  6. Anabela Ruas de Oliveira diz:

    Texto belíssimo. A questão do uso das tecnologias vem também em prol da manutenção do vínculo, olhar no rosto se bem que à distância é importante. Os constrangimentos vão surgindo certamente, mas não há dúvidas de que o ensino está a mudar e jamais voltará a ser o mesmo. Os professores estão a aprender, “alguns”, a dominar um novo adamastor, que no fundo, bem vistas as coisas, é um facilitador do ensino. Os paradigmas são difíceis de mudar…. mas lá se vai caminhando, desde que não se perda a componente humana.

  7. Fernanda Manuela Ferreira Bacalhau diz:

    Fantástico, é isso mesmo que eu tenho sentido neste tempo de ensino à distancia, sou professora de Educação Especial , e alunos de uma escola secundária , que presencialmente consideravam não precisar do meu apoio , porque já se achavam ” grandes” e autónomos, preferindo as brincadeiras com os colegas, agora solicitam , e eu todos os dias telefono , e pergunto ” está tudo bem?” , precisas de ajuda? , envio mensagens de estimulo … e else sentem que eu estou presente . É esta a escola que eu acredito , a escola de aprendizagem ativa, onde o professor está lá, com um olhar, um sorriso, tira uma dúvida, guia o pensamento. Parabéns Professor pelo seu artigo!

  8. Antonio Dias de Figueiredo diz:

    Concordo consigo, Anabela. O Torga tem uma poema muito bonito onde diz, “Sobre a ponte insegura é que é passar! Fica a torrente a correr dentro das veias”

  9. José Faria diz:

    Começo por dizer que, no geral, concordo, com as ideias defendidas no texto. Mas tenho muita dificuldade em compreender a pertinência do seu conteúdo. Parece que alguém da Tutela disse, ou mesmo sugeriu, que o ensino presencial será substituído pelo ensino à distância. Se assim fosse, o autor teria, na minha opinião, toda a razão e pertinência para alertar para as desvantagens do ensino à distância. De facto, o ensino presencial é incomensuravelmente mais vantajoso para o ensino e aprendizagem do que o ensino à distância. Mas há alguém que tenha dúvidas em relação a este assunto? Não sabemos todos nós que o ensino à distância é um mal menor e de recurso face à situação atual de pandemia? O que será que me está a escapar?

  10. Antonio Dias de Figueiredo diz:

    Obrigado pelo seu comentário. Estou convencido de ninguém defenderá o ensino a distância sobre o presencial para as idades escolares, sobretudo as mais baixas. O ensino a distância só é possível quando o estudante tem uma autonomia intelectual e emocional elevada. O que aconteceu em Portugal, e em quase todo o mundo, foi uma solução de emergência. Dito isto, acredito que será conveniente introduzir no ensino não superior uma dimensão de distância que não substitua o presencial mas o complemente.

  11. Pingback: Os Equívocos da Educação à Distância | António Dias de Figueiredo (PT)

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