Por uma Ecologia dos Saberes

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Este ‘post’ é uma versão tornada legível, e ilustrada com algumas ligações Web, do guião que esbocei para a apresentação do TEDx Coimbra 2010. Ao contrário do ‘post’ anterior, não se centra em questões de educação. No entanto, os temas abordados situam-se, como se tornará claro, no cerne da educação do futuro.

A Renascença foi o último período da história da humanidade em que se ambicionou ligar os conhecimentos dos vários domínios do saber. Figuras como Leonardo da Vinci ficaram para história como homens universais, que não só dominaram os saberes da época como os combinaram em sínteses harmoniosas e contribuíram para o seu desenvolvimento em várias dimensões.

O século XVII, ao afirmar o primado do pensamento analítico e das visões determinísticas do mundo, e ao articulá-las com o legado experimentalista de Leonardo da Vinci, viria a fazer emergir a ciência moderna. Essa evolução, que explica o progresso que hoje vivemos, surgiu, no entanto, associada a dois fenómenos que romperam com o passado renascentista: a compartimentação dos saberes e a especialização das práticas. A enciclopédia francesa de Diderot e D’Alembert, cuja publicação se iniciou em meados do século XVIII, tentava recuperar a visão unitária do saber, agregando numa só obra o essencial do que se sabia então. No entanto, com a explosão dos saberes industriais e a força dos ideais cartesianos que sustentavam a nova ciência, a compartimentação dos saberes, que a própria enciclopédia reflectia, tinha-se tornado aparentemente irreversível.

Associada à compartimentação do saber, surgiu a especialização das práticas. Construir novos saberes em cada domínio passou a ser tarefa para especialistas. E como os domínios se diversificavam cada vez mais, o especialista passou a ser alguém que sabe cada vez mais sobre cada vez menos, ao ponto de saber tudo sobre quase nada e não saber nada sobre quase tudo. Independentemente das críticas dirigidas a esses especialistas, há que reconhecer que as descobertas que alguns alcançaram nos seus estreitos pináculos de saber são tão importantes que alteraram o curso da história. Em larga medida, o saber da humanidade, nos nossos dias, é uma agregação de saberes que milhões de especialistas conquistaram, cada um escalando o seu pináculo.

Apesar desses sucessos, ou graças a eles, por volta dos anos 1970 o modelo analítico, determinístico, lógico e compartimentado da racionalidade científica começou a revelar fragilidades. Por um lado, ilustres nomes da física, da química, da biofísica e da biologia, como Jacques Monod, Ilya Prigogine, Henri Atlan ou Heinz von Foerster apontaram as crescentes insuficiências da racionalidade científica e acentuaram a importância dos fenómenos da complexidade, do caos e das causalidades mútuas, a inevitabilidade de construir saberes na incerteza e o mistério da emergência espontânea de ordem a partir da desordem. Por outro lado, cultores das ciências sociais e humanas, como Gregory Bateson ou Edgar Morin, apontaram as insuficiências das visões analíticas e deterministas e clamaram por visões transdisciplinares, defendendo a importância do pensamento sistémico e a urgência de ligar os saberes numa Nova Renascença.

Será assim tão urgente enfrentar a complexidade e o caos, construir  conhecimento em cenários de incerteza, fomentar a transdisciplinaridade? A minha resposta é que sim! Primeiro, porque os problemas sociais dos nossos dias são cada vez menos determinísticos e cada vez mais complexos. Segundo, porque cada vez mais problemas económicos, científicos e tecnológicos são problemas sociais e, como tal, tendencialmente complexos. Quando os problemas são determinísticos, mesmo que muito complicados, é possível formulá-los com rigor, identificar requisitos e estabelecer percursos planeados que garantem solução. Mas quando não são determinísticos, ou ocorrem em espaços de causalidade múltipla, as coisas complicam-se. Nos casos, cada vez mais frequentes, dos chamados problemas perversos (wicked problems), nem sequer é possível formulá-los. A única forma de os resolver é ir experimentando soluções e avançar com a sua clarificação à medida que vão sendo resolvidos: a formulação do problema e a sua resolução acontecem em paralelo.

Daniel Pink, no seu livro A Whole New Mind: How to Thrive in the New Conceptual Age, insiste em que os desafios do mundo de hoje se colocam à própria constituição neurológica do ser humano. Como sabemos, os dois hemisférios do nosso cérebro têm especializações distintas: o esquerdo dedica-se ao pensamento analítico, lógico, sequencial e verbal; o direito ao pensamento de síntese, holístico, intuitivo e não verbal (é por vezes descrito como o hemisfério da sensibilidade e da criatividade). No mundo determinístico do passado, onde as abordagens analíticas funcionavam, todos os problemas podiam ser entregues para resolução aos nossos hemisférios esquerdos. Os três últimos séculos incentivaram intensivamente, em particular através da escola, as capacidades do hemisfério esquerdo. Em contrapartida,  desprezaram, quando não ridicularizaram, as capacidades hoje reconhecidas ao  hemisfério direito. O que Pink acentua é que as capacidades do hemisfério direito, tão escassas no cidadão comum, fará toda a diferença na era de complexidade em que vivemos. Aponta, por isso, o que designa por “sentidos” associados ao hemisfério direito, que aqui retomo parcialmente e com algumas adaptações:

•    Design
•    Empatia
•    Linguagem
•    Orquestração
•    Estética

O design é aqui entendido na acepção geral, de arte da concepção, e não na acepção restrita que frequentemente lhe é atribuída, de design gráfico. Era nessa primeira acepção que o entendia Leonardo da Vinci, para quem disegno significava, não apenas “desenho”, mas sobretudo “desígnio”. Fazer o design de uma obra era concebê-la para que cumprisse um desígnio, um destino, um futuro que sonhávamos para ela e que queríamos transformar em realidade. Ao contrário dos cientistas, os designers dão preferência aos problemas mal definidos e holísticos, abordam-nos de forma exploratória, na perspectiva da solução e não do problema, toleram com agrado o erro e o imprevisto, privilegiam o raciocínio generativo ao dedutivo, acolhem com prazer a analogia e a metáfora e progridem de forma dialéctica, jogando com agilidade entre o ver que e o ver como. É por isso que o Design, ao contrário da Ciência, está preparado para confrontar a complexidade do mundo de hoje.  Toda a criança que saia das nossas escolas sem um pouco de sentido do design terá dificuldade em fazer sentido do mundo que a rodeia. Compreende-se, por estas razões, que o World Economic Forum, o fórum mundial das grandes elites políticas e empresariais, tenha adoptado como tema central, em 2006, o design thinking. Pelas mesmas razões, várias universidades americanas, das mais destacadas, como a de Stanford, têm vindo a criar cursos onde o design é combinado com a economia, a gestão as engenharias, como forma de incentivar a criatividade e o pensamento transdisciplinar.

A empatia é outro sentido inspirado pelo hemisfério direito. Corresponde à capacidade para nos pormos na pele dos outros e sentirmos o que os outros sentem, respeitando e compreendendo as suas vulnerabilidades e inseguranças. A empatia não é o mesmo que solidariedade ou compaixão. É um sentido natural e intuitivo, que tem sido desincentivado nos últimos séculos, em que só a frieza racional e o fecho ostensivo às emoções faziam sentido. Necessita, por isso, de ser cultivado. Está hoje provado que a as nossas competências sociais, capacidade para trabalhar em equipa e faculdades de liderança radicam no mais fundo da nossa empatia. Quem poderá ser líder se não souber sentir-se na pele de quem é liderado? Quem poderá comunicar, ou ensinar, sem saber imaginar a vulnerabilidade e insegurança de quem o escuta ou lê? Como apontava Daniel Goleman, já há quinze anos, no seu livro Inteligência Emocional, e nos recorda Jeremy Rifkin no seu recente livro The Empathic Civilisation, a empatia é cada vez mais necessária em todos os modos de relacionamento e de conhecimento colectivo.

A linguagem é o instrumento mais poderoso do ser humano. No entanto, o fervor racionalista dos últimos séculos, ao procurar aumentar-lhe a precisão, atrofiou-a: desvalorizou a narrativa (o storytelling), ridicularizou o uso da metáfora, ignorou a relevância do ritmo, desdenhou o recurso ao humor, reprovou a importância do mistério. Ora, como dizia Roger Schank, e confirmam vários neuro-cientistas, o ser humano não está geneticamente configurado para compreender lógicas, mas sim para assimilar histórias. As lógicas que o hemisfério esquerdo entende não fazem sentido se não se inserirem num todo que esse hemisfério não abarca. A nossa experiência e conhecimento organizam-se em padrões estruturados sob a forma de histórias, às quais o hemisfério direito dá sentido. Há que recuperar o respeito pela linguagem e cultivar a competência no seu uso, reconhecer a importância da narrativa, da metáfora, do ritmo, do humor, do mistério. Num mundo onde estamos afogados em informação só ouviremos quem contar as melhores histórias e só seremos ouvidos se fizermos o mesmo.

A orquestração é outro sentido suportado pelo hemisfério direito. Orquestrar é compreender e construir o todo e as partes e gerir as dinâmicas das respectivas interacções. É ser capaz de fazer as grandes e pequenas sínteses, de transpor e ligar fronteiras, de construir novos todos, de reconhecer padrões, de arriscar saltos da imaginação e tirar partido deles, algo que o hemisfério esquerdo, na sua visão compartimentada do mundo, é incapaz de fazer. Quando Edgar Morin reclama visões transdisciplinares do mundo e defende o pensamento sistémico e a urgência de ligar os saberes numa Nova Renascença é às capacidades de orquestração que está a fazer apelo. O sentido da orquestração, hoje dominado pelos empreendedores e criadores genuínos, é cada vez mais necessário para que cada cidadão possa fazer sentido (os ingleses falam em sensemaking) do mundo complexo com que se confronta todos os dias.

A estética é mais um sentido fortemente inspirado pelo hemisfério direito, essencial para a unificação dos saberes. Será, talvez, sugestivo evocar aqui o discurso de Aleksandr Solzhenitsyn quando, há quarenta anos, foi galardoado com o prémio Nobel da literatura. O título do seu discurso, Beauty Will Save the World, foi escolhido como homenagem a Dostoevsky, para quem a beleza, seguindo a inspiração da Grécia clássica, se combinava de forma indissociável com a prática do bem e da verdade. O sentido da estética como movimento unificador tem sido enaltecido por muitos autores. Mas, ficando-nos por Dostoevsky, que tantas vezes celebrou nas suas obras a graça redentora da beleza, vale a pena lembrar, do livro que antecedeu a sua morte, os Irmãos Karamazov, a parte em que se dirige ao leitor e lhe diz (cito de memória): “por muita que seja a tua revolta contra a maldade que te rodeia, por muita que seja a tua vontade de vingança, domina-te: o teu papel é criares o todo, é construíres o futuro. Beija a terra e dá graças pela beleza do mundo em que vives.” É este o convite que aqui faço, de que, na nossa relação com o mundo, procuremos usar os sentidos do design, da empatia, da linguagem, da orquestração e da estética, mas também da lógica, da causalidade e da especialização, e que, juntos, procuremos construir uma ecologia dos saberes.

Vídeos da apresentação no TEDx Coimbra 2010:

Por uma Ecologia dos Saberes (parte I)

Por uma Ecologia dos Saberes (parte II)

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